Quem já assistiu Death Note sabe muito bem que o caderno é o de menos. Um dos grandes trunfos desse anime, na minha opinião, são os personagens. Esse é o primeiro texto da categoria Reflexões aqui no Show Paralelo, e ele fala de Death Note e seu mundo podre. Caso você ainda não tenha assistido ao anime, o texto contém spoilers da trama.
O mangá escrito por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata saiu na Weekly Shōnen Jump entre 2003 e 2006, e o anime dirigido por Tetsurō Araki tem 37 episódios, segundo a Wikipédia em português. Já nos primeiros instantes do primeiro episódio o Light, o protagonista da obra, ouve notícias e pessoas comentando sobre atrocidades que acontecem diariamente e ele chega a conclusão de que o mundo está podre e que quem o apodrece merece morrer.
Uma coisa interessante é quando você para e vê que o mundo da obra não é nada diferente do nosso, onde de fato acontecem mortes, roubos, assédios, oportunismo e corrupção à nossa volta. Light a princípio é uma pessoa que observa como o mundo funciona e tem uma opinião forte quanto a isso.
Death Note e seu mundo podre, uma história sobre máscaras
Segundo o Online Etymology Dictionary, hipócrita vem do grego hypokritēs, que significava ator de teatro ou fingidor. Ou seja, hipócrita é quem finge ser algo que na realidade não é, como se usasse uma máscara, e Death Note fala muito sobre isso. O crítico Douglas Wolk, na Salon, diz que o centro do medo da obra é a incerteza moral, junto com a suspeita de que a identidade de alguém pode ser apenas uma máscara.
Jesus usou uma imagem parecida ao chamar os fariseus de sepulcros caiados (Mateus 23.27), bonitos por fora e cheios de ossos de mortos por dentro, pois apesar dos fariseus se apresentarem como mestres da lei, pessoas de muito estudo que pagavam de boa virtude e oravam nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pela população como “homens de muita fé”(Mateus 6.5), na realidade eram em sua maioria egoístas, corruptos e ambiciosos. Guarde essa imagem porque ela serve pra quase todos os personagens daqui pra frente.
Light Yagami – o aluno e filho exemplar de mãos sujas

Desde sempre Light é retratado como um gênio educado e muito popular entre colegas e professores. A máscara era tão perfeita que talvez nem mesmo ele sabia da própria mentira. Por trás disso, ele escreve nomes de criminosos no Death Note. O ego dele é tão grande que se intitula “O deus do novo mundo“, simplesmente por receber um poder ao acaso ele cria essa visão distorcida de si mesmo de ser “divino”. E essa máscara funcionou até com o pai, que morre achando que o filho não era o Kira.
No início, Light observa o horror do mundo à sua volta e quando testa o poder do caderno, a primeira coisa que vem a sua mente é “Vou matar criminosos e ser o deus do novo mundo!”. Mas além do seu complexo de deus (que já é um péssimo sinal por si só) com o decorrer dos episódios vemos sua verdadeira índole aflorar quando deixa de matar apenas criminosos para matar pessoas que possam atrapalhar-lo ou descobrir sua identidade.
O que mais me incomoda é como ele usa pessoas inocentes, como quando ele arma um sequestro de ônibus pra descobrir o nome do agente do FBI Raye e faz o próprio agente escrever, sem saber, os nomes dos outros onze agentes numa folha do caderno eliminando toda a equipe de investigação do FBI que estava a sua procura. Ele faz Naomi Misora, noiva de Raye, a revelar o próprio nome para matá-la. Manipula o shinigami Rem pra matar o L. Promete à Takada o posto de deusa do novo mundo e quando ela não pode mais ajudar é eliminada. Segundo o crítico Jacob Chapman, do Anime News Network, isso mostra que o Light quer controle, e não justiça. E concordo com essa visão, tanto é que mencionei ele na minha lista de piores protagonistas dos animes.
A Bíblia tem um caso parecido de manipulação no Éden, a serpente enquanto enganava Adão e Eva, oferecendo também a ambição de que eles poderiam ser iguais a Deus (Gênesis 3.5). Para o Plugged In, a maçã mordida na abertura do anime provavelmente é uma referência ao fruto do conhecimento do bem e do mal. Neste caso o caderno representa o fruto proibido, mas assim como o fruto no Éden isso não o tornaria um deus, apenas libertaria sua pior versão.
Misa Amane, o “amor excessivo”

A Misa é um dos casos mais tristes de dependência em Death Note. Os pais dela foram assassinados na frente dela, o assassino acabou sendo morto pelo Kira e ela passou a venerá-lo. Durante a trama, ela corta pela metade o tempo de vida que ainda tinha, duas vezes, ganhar os olhos de shinigami para encontrar Kira e depois para ajudar o Light. Desde o início Light deixa claro que o namoro deles seria só encenação, e mesmo assim ela acredita que vai conquistar o amor dele.
A Bíblia fala de uma mulher chamada Rute que também é leal e acompanha a sogra até uma terra estranha para cuidar dela, mesmo não tendo tal obrigação (Rute 1.16). A diferença é que Rute escolhe ficar sem deixar de ser Rute, e a sogra cuida dela de volta (Rute 3.1). A Misa coloca o Light num lugar que só Deus deveria ocupar, confiando a ele sua vida, seu amor, suas ações e tudo que ela é a serviço de alguém que nitidamente está a usando para benefício próprio, tratando o Light como se ele fosse o deus que diz ser, o que lembra o primeiro dos dez mandamentos “Não terás outros deuses diante de mim.” (Êxodo 20.3).
Este mandamento não se refere apenas às falsas divindades, mas em muitas esferas da nossa vida cotidiana, seja um cantor, um ator, um político ou até mesmo um par romântico. O problema não é ter essas pessoas em alta consideração, e sim quando a admiração vira algo descomunal como acampar por dias para assistir um show, brigar com a família inteira por conta de um candidato que nem sabe quem você é, ou assim como a Misa, se fazendo refém do próprio sentimento por Light colocando a própria vida nas mãos dele, e mesmo sabendo que ele não a ama ela engana a si mesma, fazendo com que cada migalha que ele der a ela pareça amor.
L, o detetive que também joga sujo

O L Lawliet já é uma máscara por natureza, porque ninguém conhecia a sua identidade além do Watari. Um detetive mundialmente conhecido por solucionar casos difíceis e que muitos fãs da obra enxergam como um dos poucos personagens íntegros da obra.
Mesmo assim, usa Lind L. Tailor, um detento condenado à morte como isca em um plano para tentar localizar Kira, Lind tentaria fingir ser o próprio L, em troca de perdão do governo. O Light o mata ao vivo na TV e o L descobre que o Kira precisa ver o rosto e saber o nome da vítima e que estava na região de Kanto no Japão. O plano funcionou muito bem, mas uma vida virou peça de tabuleiro.
O sumo sacerdote Caifás defende que convém um homem morrer pelo povo (João 11.50), no contexto do plano de eliminar Jesus. Sacrificar um pelo bem de muitos soa nobre, e é a lógica que o L usou com o Tailor e que o Light usa o tempo todo, já que a Wikipédia descreve a ética dele como utilitarista. Quando alguém fala em sacrifício necessário, vale se perguntar quem vai se beneficiar com aquilo.
Mikami e o zelo que não enxerga

O Teru Mikami é um promotor e adorador fanático do Kira. Desde criança ele tem um senso de justiça forte, mas anos sofrendo bullying e trauma entortaram isso, e ele chega a querer punir gente improdutiva e criminosos regenerados, o que até o Light acha demais (lista de personagens).
O Saulo perseguia os discípulos de Jesus indo além das ameaças, matando e prendendo muitos deles (Atos 9.1 e Atos 22.4), e o mesmo Paulo escreveria depois sobre gente que tem zelo por Deus, mas sem entendimento (Romanos 10.2). A diferença é que o Saulo ganhou uma estrada de Damasco, e o Mikami não.
Ryuk, Near e o dia em que a máscara cai

O Ryuk simplesmente largou o caderno no mundo humano só por tédio e deixa claro que não está do lado de ninguém, só assistindo (Wikipédia). Na minha leitura, se o caderno é o fruto proibido como mencionei antes, o Ryuk é a serpente que entrega o fruto e senta pra ver o que vai acontecer. Ele avisa no primeiro episódio que quem usa o caderno não vai nem pro céu nem pro inferno, isso dentro da mecânica de como o mundo funciona nessa obra segundo o Plugged In, e no fim é ele quem irá escrever o nome do Light.

Quem derruba o Light de verdade é o Near. Com ajuda do Gevanni, que consegue trocar o caderno do Mikami por um falso sem que ele perceba, o Mikami escreve os nomes no caderno falso enquanto Light revela ser o Kira e comemora falando “eu venci”, instantes se passam, ninguém morre e Light é finalmente encurralado. Isso lembra o profeta Natã, que conta uma história ao rei Davi e faz ele se condenar sozinho por ter matado Urias e então aponta que o homem da história era o próprio Davi (2 Samuel 12). Nos dois casos, a máscara vai pro chão.
E a gente, o que faz com isso tudo?
Não tem uma resposta “certa”. O Wolk lembra que o Light acredita de verdade que está moralmente certo, e isso é perturbador. Tem outro ponto desconfortável. Para o Chapman, o Matsuda, um dos policiais da força tarefa, representa as pessoas que dizem ser contra os assassinatos, mas torce para que alguém faça esse serviço sujo, e no fim, no momento da raiva ele mesmo com uma arma teria matado Light ao descobrir que ele era Kira, mas foi impedido antes que conseguisse. Será que o mundo podre não inclui esse tipo de pessoa?
O Ohba afirmou que não queria dizer nada sobre ética, segundo o Anime News Network, então a reflexão fica por conta do público. Em 2015, até um grupo de estudos da Universidade de Washington usou o anime pra discutir justiça e vigilantismo.
Diante de gente pronta pra apedrejar uma mulher, Jesus pediu que atirasse a primeira pedra quem estivesse sem pecado (João 8.7), e depois disse a ela que não pecasse mais (João 8.11). Não é convite à impunidade. É convite a olhar pra dentro antes de julgar.
Que máscara você veste?
Na minha opinião, o Light é apenas mais uma pessoa nesse “mundo podre” que tanto abomina. Independente de você ser cristão ou não, terá de concordar que não existe uma pessoa perfeita que nunca tenha feito nada de mal na vida. Eu já fiz coisas más assim como você que está lendo. A Bíblia é clara ao dizer que se dissermos que não temos pecado nenhum, estamos enganando a nós mesmos (1 João 1:8-10).
Também na minha opinião, concordo em partes com o filósofo Thomas Hobbes quando ele diz que o homem é essencialmente mau, e para mim o mundo que vivemos é a prova disso, Deus nos deu o livre arbítrio e cá estamos com nossas guerras, busca por privilégio as custas alheias ou até mesmo odiando alguém por conquistar aquilo que não conseguimos. O mundo não é dividido entre pessoas boas e más, o mundo é dividido entre tentam fazer aquilo que é bom e as que não fazem questão de tentar ser bom.
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